"O falastrão está “livre e solto, passeando pelas ruas de Nova York" (Temer sobre Joesley)




BRASÍLIA – No segundo pronunciamento feito em dois dias, o presidente Michel Temer disse neste sábado que entrou com petição no Supremo Tribunal Federal (STF) para pedir a suspensão do inquérito contra ele por corrupção passiva, organização criminosa e obstrução da Justiça. Sem esconder a irritação, Temer acusou o empresário Joesley Batista – dono da JBS que gravou conversa com ele – de cometer o “crime perfeito” e sugeriu anuência do Ministério Público numa gravação “fraudulenta”.
Para embasar suas declarações, o presidente afirmou que perícia da gravação de seu diálogo com Joesley feita pelo jornal Folha de S. Paulo mostra que a conversa foi adulterada e teve mais de 50 edições. A pedido do Estado, o perito Marcelo Carneiro de Souza identificou “fragmentações” em 14 momentos do áudio.
Temer criticou o fato de Joesley – chamado por ele de “falastrão exagerado” – estar “livre e solto, passeando pelas ruas de Nova York”, sem qualquer punição. “Ele não passou nenhum dia na cadeia, não foi preso, não foi julgado, não foi punido e, pelo jeito, não será. Cometeu, digamos assim, o crime perfeito. Enganou os brasileiros e agora mora nos Estados Unidos. Graças a essa gravação fraudulenta e manipulada, especulou contra a moeda nacional.”
Em 12 minutos de pronunciamento, o presidente desqualificou o delator ao lembrar que a JBS comprou US$ 1 bilhão na véspera do vazamento do áudio da delação. O preço da moeda foi às alturas no dia seguinte e Joesley vendeu as ações antes da queda da Bolsa, provocada pela instabilidade do governo. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) está investigando a operação.
“O Brasil, que já tinha saído da mais grave crise econômica de sua história, vive agora dias de incerteza”, afirmou Temer. “Houve grande planejamento para realizar esse grampo, enquanto criminosos fugiam do Brasil. Essa gravação clandestina foi manipulada e adulterada com objetivos nitidamente subterrâneos.”
O pedido de abertura de inquérito contra Temer foi feito pela Procuradoria-Geral da República e autorizado pelo ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF. Além do presidente, são alvos da investigação o senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG) e o deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR), que foi filmado com uma mala de dinheiro.
Para Temer, as “incoerências” entre o áudio divulgado e o teor do depoimento do dono da JBS comprometem toda a lisura do processo jurídico. A defesa do presidente, comandada pelo criminalista Antonio Cláudio Mariz de Oliveira, pede a suspensão do inquérito no Supremo até que as gravações sejam avaliadas.
Com o agravamento da crise política e a ameaça de debandada de partidos da base aliada, Temer decidiu dar respostas rápidas às delações premiadas da JBS. Nos últimos dias, o presidente repetiu a aliados do PSDB, do DEM e do próprio PMDB que não tem nada a esconder e que está sendo vítima de uma “conspiração”.
Temer estava acompanhado no pronunciamento pelos ministros Antonio Imbassahy (Secretaria de Governo) e Sérgio Etchegoyen (Gabinete de Segurança Institucional), além dos deputados Carlos Marun (PMDB-RS), Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA) e Darcísio Perondi (PMDB-RS). O chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, que já estava em Porto Alegre (RS), voltou, mas não chegou a tempo de aparecer na foto.
Vestido de forma informal, sem gravata, o presidente citou a melhoria dos indicadores econômicos e as reformas em curso. Disse, ainda, que as delações contra ele tentam macular não só sua reputação moral como “invalidar” o Brasil. Temer citou trechos do depoimento de Joesley, na tentativa de provar que o empresário estava insatisfeito com o governo, reclamando do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, do Cade e do BNDES.
“O governo não atendeu a seus pedidos. Não se sustenta, portanto, a acusação pífia de corrupção passiva”, insistiu o presidente.
ALPISTE E GRAMÁTICA
Na conversa com Temer no Palácio do Jaburu, em 7 de março, Joesley disse que estava “de bem” com o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ), preso pela Lava Jato. “Tem que manter isso, viu?”, respondeu Temer. Em seguida, Joesley acrescentou: “Todo mês”. Parte do diálogo, porém, é inaudível.
O empresário também contou a Temer que estava comprando um procurador e “dando conta” de dois juízes para barrar uma investigação sobre empresa do grupo J&F, holding que administra a JBS. “Ótimo”, afirmou Temer. À Procuradoria-Geral da República, Joesley disse que, a pedido do presidente, pagou a ele R$ 4,7 milhões de 2010 a março de 2017.
Já o diretor da JBS Ricardo Saud disse à Procuradoria que Joesley e Temer tinham uma senha em comum para se referir às mesadas pagas a Cunha e ao operador Lúcio Funaro na cadeia. “O código era ‘tá dando alpiste pros passarinhos? Os passarinhos tão tranquilos na gaiola?”
Ao afirmar que houve “falso testemunho” de seus delatores à Justiça, o presidente lembrou da gramática, que tanto aprecia. “Chegam ao desplante de me atribuir falas, frases ou senhas ou palavras chulas que jamais cometeria. Atentam contra meu vocabulário e minha inteligência”, disse ele.

J&F recusa acordo de leniência de R$ 11 bilhões com MPF

Proposta dos procuradores venceu ontem às 23h59 min. Empresa ofereceu R$ 1,4 bi (por Josette Goulart, Estadao Conteudo)
O grupo J&F não aceitou os termos do acordo de leniência proposto pelo Ministério Público Federal (MPF), que havia condicionado o negócio ao pagamento de uma multa de R$ 11,17 bilhões, que corresponde a quase 6% do faturamento do grupo, em dez anos. A proposta venceu ontem às 23h59 e, segundo o MPF, não houve acordo.
Agora pode ser aberta uma nova rodada de negociações em outras bases e em termos piores do que a proposta expirada. Se não fechar acordo, as investigações seguem normalmente e, em caso de ações judiciais, a empresa arcará com as consequências. 
Segundo informou o MPF, os representantes da J&F haviam oferecido pagar somente R$ 1 bilhão, que equivaleria a 0,51% do faturamento. Às 21 horas de ontem, a empresa fez uma nova proposta, de R$ 1,4 bilhão. Os procuradores recusaram de pronto. Fontes próximas à empresa entendem que a ideia seria fechar pela metade do valor proposto pelo MPF.
O acordo de leniência corre em paralelo com o de delação. Se os termos propostos pelo MPF tivessem sido aceitos, seria a maior multa da história mundial paga por uma empresa por atos de corrupção a apenas um governo. O maior acordo foi o do grupo Odebrecht, que incluiu a Braskem, fechado no ano passado. A Odebrecht se comprometeu a pagar cerca de R$ 8 bilhões, em 23 anos, somente para o governo brasileiro. Outros R$ 3,5 bilhões foram destinados a acordos com autoridades americanas e suíças, além de US$ 185 milhões fechados com a República Dominicana.
O grupo J&F também terá de negociar uma multa a ser paga para o Departamento de Justiça (DoJ) dos EUA, segundo advogados especializados no assunto. A empresa já está em tratativas com o DoJ. Pela lei anticorrupção americana, pessoas ou empresas que têm qualquer tipo de negócio nos EUA estão sujeitas à lei. A JBS tem forte atuação no país, que representa cerca de metade do faturamento no processamento de carnes.
Em carta aberta enviada ontem à imprensa pelo presidente da J&F Investimentos, Joesley Batista, o empresário assumiu os erros, mas fez questão de afirmar que os negócios fora do Brasil seguiram preceitos éticos. Segundo alguns advogados, é uma forma de tentar evitar qualquer tipo de investigação em outros países onde atua. A JBS tem unidades espalhadas pelo mundo.
A estratégia do grupo J&F foi feita tomando como base a experiência vivida pela Odebrecht. Segundo fontes próximas à empresa, seria um exemplo a não ser seguido. Porém, mais do que o acordo de leniência da Odebrecht, os executivos do grupo J&F estudaram as delações dos 77 executivos da empresa. Joesley não queria parar na prisão como Marcelo Odebrecht.
A estratégia foi traçada por Joesley e pelo vice-presidente Jurídico, Francisco de Assis. Eles conseguiram, assim, a imunidade dos delatores, continuar atuando nas empresas e o pagamento de uma multa de R$ 250 milhões.
Nas primeiras investigações que vieram a público, no entanto, o grupo J&F parecia inicialmente seguir o que fez a Odebrecht: negar. Com a operação Greenfield, a empresa chegou a fazer uma investigação interna na Eldorado Celulose, conduzida pelo próprio Joesley. Os resultados apresentados pela Veirano Advogados diziam que não se poderia afirmar que havia irregularidades, nem mesmo nos contratos que a Eldorado tinha com Lúcio Funaro, acusado de cobrar propina para liberar empréstimo no FI-FGTS.
O resultado foi contestado pelo conselheiro da Funcef, fundo de pensão da Caixa Econômica Federal, na empresa, Max Pantoja, que entregou as suspeitas ao MPF. Joesley chegou a, publicamente, colocar suspeitas sobre a atitude de Pantoja. Agora, na delação, o próprio Joesley relata que os contratos com Funaro pagos pela Eldorado eram referentes a notas frias.
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– Charge do Benett, via Gazeta do Povo.

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Fonte: O Estado de S. Paulo


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