No Pará a pecuária agora traz mais lucro e menos destruição



Quando o gaúcho Cleosmar Turmina chegou a São Félix do Xingu, no sudeste do Pará, esperava encontrar terra boa e muita chuva. “Gaúcho”, como é conhecido na região, achou mais do que isso. Além de férteis e privilegiadas pelos longos períodos úmidos, as terras de São Félix do Xingu eram baratas.

Cleosmar Turmina

Em 2006, ele pagou 110 000 reais por 655 hectares — hoje, o valor estimado é 30 vezes maior. Assim que tomou posse de sua fazenda, ele seguiu o mesmo passo de seus vizinhos: criar gado em áreas desmatadas. “Naquela época, a fumaça das queimadas cobria o horizonte”, afirma o pecuarista, que abandonou a vida de comerciante em São Paulo para dedicar-se à produção de carne ao lado da família.

Nos últimos três anos, porém, Turmina decidiu investir em novas técnicas de produção. Antes criado solto, o gado agora se alterna em áreas determinadas. As margens dos córregos que passam por suas terras foram isoladas para impedir que a boiada pisoteie a mata nessas áreas e assim acabe com essas fontes de água. Parte da área desmatada no passado agora está em recuperação.

Turmina virou um dos maiores adeptos da pecuária sustentável no município, que já ocupou o posto de campeão nacional de desmatamento na Amazônia. A mudança de postura de Turmina ajuda a mostrar como o município de São Félix do Xingu se tornou um retrato do que há de pior e de melhor na rápida expansão da pecuária na região amazônica.

Com uma área equivalente a duas vezes a do estado do Rio de Janeiro, a cidade abriga hoje o maior rebanho bovino do Brasil — cerca de 2,3 milhões de animais, o equivalente a 1% de todo o gado do país. Boa parte do fluxo de pecuaristas para a região aconteceu nos anos 80 — e intensificou-se na última década. Desde 2000, o rebanho mais do que triplicou.

O desmatamento também avançou. Até 2008, o município já tinha perdido 25% de sua cobertura vegetal e atingiu o maior índice anual de desmatamento no país. O movimento se estendeu em diferentes escalas a toda a região amazônica e transformou a pecuária na principal vilã da floresta.

Dados recentes do TerraClass, projeto do governo federal que se dedica a mapear a cobertura do território da Amazônia, mostram que os pastos compõem quase 60% das áreas desflorestadas — extensão dez vezes maior do que a ocupada pela agricultura.

Virada

Parte desse enredo, porém, começa a ficar no passado. São Félix do Xingu deixou o topo da lista dos campeões de desmatamento na região amazônica, embora ainda seja um dos 25 municípios em estágio de alerta devido à área que é desmatada por ano, acima do limite de 40 quilômetros quadrados determinados pelo Ministério do Meio Ambiente.

Nos últimos seis anos, o ritmo de destruição anual caiu 65%. O ponto de inflexão se deu em 2009, quando a indústria de carne e os varejistas foram pressionados a monitorar a cadeia de produção e deixar de comprar de quem desmata ilegalmente.

Naquele momento, um levantamento da ONG Greenpeace revelou que boa parte da carne comprada por grandes frigoríficos e varejistas no Pará tinha origem em fazendas que desrespeitavam a legislação ambiental.

A denúncia levou o Ministério Público a ajuizar uma série de ações que paralisaram abatedouros e suspenderam a compra de carne por grandes supermercados, como Walmart, Carrefour e Pão de Açúcar. Ao mesmo tempo, avançaram esforços conjuntos para educar produtores locais sobre técnicas mais sofisticadas de criação que permitem aumentar o rebanho mesmo reduzindo as áreas de pasto.

Um deles reúne 18 pecuaristas, que abriram as portas de suas propriedades para técnicos da The Nature Conservancy, maior ONG ambiental do mundo. O argumento definitivo para quebrar a resistência inicial foi o do ganha-ganha — preservar a floresta é mais rentável do que derrubá-la. O discurso teve respaldo empresarial.


Ao lado da TNC nessa empreitada, batizada de Carne Sustentável, estão o frigorífico Marfrig, segundo maior do país, e a rede varejista Walmart, oficialmente parceiros desde 2012. A meta é que o frigorífico de Tucumã, município vizinho a São Félix, opere com 100% de sua capacidade — hoje, opera com 70% dela porque não há fornecedores que correspondam aos requisitos da produção sustentável.

Mudar essa realidade significa combater uma herança histórica da região. Para Marcelo Stabile, pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), a falta de infraestrutura nessa parte do Brasil tornou o gado uma solução natural para a ocupação do solo há décadas, sem levar em conta os danos gerados no longo prazo.

O isolamento ajudou a perpetuar técnicas ultrapassadas. A exemplo de Turmina, muitos fazendeiros locais precisam percorrer cerca de 1 hora e meia de estradas estreitas e sem asfalto para chegar ao centro da cidade. “A mudança de mentalidade é lenta e tem de vir acompanhada de ajuda técnica e investimento”, afirma o especialista.

Nas fazendas participantes, o índice  de animais por hectare não passava de 1. Até 2018, quando 300 propriedades deverão fazer parte do projeto, o objetivo é triplicar esse índice. Hoje, ele já chega a 1,6 — um ganho de 900 quilos de carne por ano.

“Os pilotos são vitrines de sucesso para estimular os demais produtores a multiplicar o conceito de intensificação”, diz Francisco Fonseca, coordenador de produção sustentável da ONG TNC na Amazônia.

“Ao ver que o novo modelo reduz custos, os fazendeiros vão naturalmente aderir às práticas.” Em municípios vizinhos, como Ourilândia, Água Azul e Tucumã, mais 36 fazendeiros preparam-se para integrar a iniciativa neste ano.

Eficiência

Boa parte dos ganhos até agora se deve a uma mudança relativamente simples. A técnica consiste em dividir o pasto em quatro ou oito cercados e concentrar o rebanho em um deles por vez, no lugar de deixá-lo livre para circular por toda a propriedade. Os bois pastam em um dos cercados e, antes que o capim acabe, são transferidos para o cercado ao lado.

Na sequência, o rebanho volta ao primeiro cercado após 20 dias, quando o capim já cresceu novamente. No modelo antigo, toda a área de pastagem era degradada pelo uso à exaustão. Isso levava à necessidade de derrubar novas áreas da mata.

A novidade, para os pecuaristas de São Félix do Xingu, permite que o solo tenha tempo de se regenerar e que o rebanho engorde mais rapidamente, aumentando assim a produtividade no uso da terra — e a qualidade da carne. Quanto mais jovem um boi vai para o abate, melhor é sua carne.

“Aprendemos a industrializar a fazenda e não vamos mais fazer do jeito antigo”, afirma Turmina, que obteve um ganho de 2 reais a cada arroba vendida no último lote de bois encaminhado à Marfrig, seis meses mais jovem do que o habitual. O retorno ajuda a incentivar a disposição de investir.

O mineiro Lazir de Castro, de 71 anos, dono de quatro fazendas no Pará e de cerca de 8 000 cabeças de gado, precisou desembolsar 1 milhão de reais para pôr de pé 100 quilômetros de cercas — para delimitar a propriedade e separar os pastos das áreas de conservação.

“O boi já fica no pasto menos tempo e meus custos são menores”, afirma ele, que começa a adotar técnicas básicas de melhoramento genético ao selecionar reprodutores com características mais favoráveis. Seu Lazir, como é chamado, é um dos poucos produtores locais que conseguiram ver seu título de propriedade legalizado — e assim podem ter acesso a crédito.

Renata Vieira, de Revista EXAME

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