Estamos ficando para trás, diz presidente da Embrapa



São Paulo — Num país onde sobram exemplos de estatais ineficientes, a Embrapa tem sido uma honrosa exceção. Em 42 anos de história, o trabalho de seus pesquisadores foi essencial para o avanço do agronegócio no Brasil, principalmente com o desenvolvimento de variedades adaptadas ao solo e ao clima das novas fronteiras agrícolas e à disseminação de tecnologias para elevar a produtividade. Sobre seu futuro, porém, paira uma ameaça.

Maurício Lopes

O Brasil investe por ano 1,9% do produto interno bruto agropecuário em pesquisa no setor. É, proporcionalmente, cerca da metade do que investem os Estados Unidos. “Se não dobrarmos o investimento, o Brasil vai perder competitividade”, diz Maurício Lopes, presidente da Embrapa. Ele quer atrair parceiros da iniciativa privada. Assim, a estatal poderia se livrar de amarras que atrapalham sua eficiência, como a burocracia do setor público.

Exame - Os países desenvolvidos investem mais de 3% do PIB do setor agropecuário em pesquisa. É bem mais do que o Brasil aplica. Estamos investindo pouco? 

Maurício - Investimos 1,9% do PIB agrícola em pesquisa agropecuária, sendo que quase 60% disso corresponde ao orçamento anual da Embrapa. Mas é preciso dobrar o investimento para manter a competitividade. O Brasil hoje contribui com apenas 5% dos investimentos mundiais em pesquisa agrícola. A Índia responde por 7% desse total.

Os Estados Unidos, por 13%. Os chineses são os que mais investem no mundo: um quinto dos recursos globais aplicados na área vem da China. A ciência avança a uma velocidade alucinante e, sem mais recursos, fica difícil manter programas de pesquisa complexa, aumentar o número de projetos e ampliar a cooperação internacional. 

Exame - Como a falta de dinheiro atrapalha?

Maurício - O ponto mais crítico está na pesquisa de plantas transgênicas, algo que exige muito capital. Trata-se de uma área importante. No Brasil, temos de desenvolver variedades mais resistentes à seca, por exemplo. Uma empresa pública não tem recursos para competir com as grandes multinacionais. Sofremos com a falta de agilidade. Para contratar um fornecedor, tenho de abrir uma licitação. Para abrir um concurso público, é preciso obter autorização do governo. E o desenvolvimento de tecnologia não pode esperar.

Exame - Cerca de 70% do orçamento da Embrapa vai para o pagamento de pessoal. Isso não é um problema? 

Maurício - Essa é uma relação aceitável. Os cérebros compõem o pilar de um centro de pesquisa e inovação. É natural que custem caro. Com todas as dificuldades, a Embrapa é uma das poucas instituições públicas no mundo que conseguem ocupar algum espaço no mercado de transgênicos.

Lançaremos até o fim deste ano a primeira variedade de soja transgênica desenvolvida inteiramente no Hemisfério Sul — as folhas são mais resistentes a um herbicida para combater infestações de plantas daninhas. Em 2016, vamos levar ao mercado um feijão transgênico resistente à doen­ça do mosaico-dourado, que causa grandes perdas aos agricultores brasileiros (veja quadro na pág. 60).

Exame - O que fazer para ampliar os investimentos? 

Maurício - Defendo a criação de uma subsidiária da Embrapa, que vamos chamar de Embrapatec. Essa empresa receberia a tecnologia desenvolvida em nossos laboratórios e trabalharia em conjunto com o setor privado, o qual traria investimentos. Dessa relação podem surgir novas tecnologias, com potencial para dar origem a novos negócios.

A empresa pública de pesquisa agrícola do governo francês fez algo parecido. A ministra Kátia Abreu, da Agricultura, está de acordo com essa iniciativa. Um projeto de lei para criar a subsidiária está sendo elaborado pelo governo e deverá ser enviado ao Congresso no ano que vem. Mas essa nova empresa precisará ter liberdade para atuar — se for submetida às mesmas limitações do setor público que a Embrapa enfrenta, não vai adiantar nada.

Exame - Qual deve ser hoje o papel da Embrapa? 

Maurício - A Embrapa teve um papel importante no desenvolvimento da agricultura tropical há 40 anos, quando o Brasil ainda era importador de alimentos. Hoje, porém, parte expressiva da pesquisa agrícola brasileira é feita pelo setor privado. Não faz muito sentido aplicar dinheiro público nas mesmas frentes em que as empresas já estão atuando.

Por isso, vejo como algo natural a diminuição da participação do investimento em algumas áreas como a das sementes de soja, na qual a Embrapa chegou a ter uma fatia de 70% até meados dos anos 90. Nossa parcela atualmente é de 10%, e a meta é recuperar um pouco, chegando a 15% em cinco anos.

Nosso papel agora é outro: abrir novas fronteiras para a agropecuária e agir mais estrategicamente. Um exemplo: nos últimos anos, nossos pesquisadores fizeram um trabalho para identificar pragas que atacam a soja, o milho e o algodão em outras partes do mundo, com potencial para produzir grandes danos às lavouras brasileiras. Fomos a outros países, identificamos variedades resistentes e criamos uma reserva genética para combater essas doenças.

Exame - De onde virá o novo salto da agricultura brasileira? 

Maurício - Da ocupação das terras de baixa produtividade. O caso mais expressivo é o das pastagens degradadas. Há cerca de 50 milhões de hectares nessa situação no Brasil. A recuperação dessas pastagens possibilita o aumento da produção pecuária de uma para até quatro cabeças de gado por hectare. Os rebanhos ficam mais adensados, o que permite a liberação de parte da área para as lavouras.

Outra grande oportunidade é o aprimoramento de culturas nas quais hoje nossa produtividade ainda é baixa. Somos muito produtivos em algumas frentes, como a da soja. Mas ainda há espaço para aumentar o rendimento de milho, trigo, feijão, arroz e na produção de carne.

 Flávia Furlan Flávia Furlan, de Revista EXAME


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