Arroz enfrenta sua “maior crise mundial dos últimos 50 anos”



Na avaliação do economista e produtor Gilberto Pilecco, o setor arrozeiro enfrenta sua “maior crise mundial dos últimos 50 anos”. “O mundo culpará as condições meteorológicas (El Niño), o efeito estufa, etc., mas será que os governos e seus líderes não têm a sua parcela de culpa?”, questiona ele.
A FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) afirma que “as condições climáticas desfavoráveis em vários países provocam queda da produção mundial do arroz. Na Ásia as chuvas insuficientes e tardias reduzem a produção na Indonésia, Camboja, Índia, Tailândia e Vietnam. As tempestades e enchentes em Burma, no Egito e Madagascar, além das chuvas irregulares, o que mais afetou a produção foram as altas temperaturas”.
O USDA (Departamento da Agricultura dos Estados Unidos) aponta as mesmas adversidades climáticas, incluindo também Filipinas e a China. “O Japão e o próprio Brasil, maior produtor das Américas, poderão ter suas produções reduzidas, mas que até o relatório de outubro ainda não foram computadas”, diz Pilecco.
Os relatórios da FAO e USDA apresentam diferenças das previsões entre 18 a 20 milhões de toneladas de arroz beneficiados, tanto na produção como no consumo. “É preciso compreender que a crise não é pela queda da produção ou estoques baixos, mas pelo aumento das necessidades mundiais [...] De 2010 a 2014 as importações médias cresceram para 41,30 milhões de toneladas, com os estoques em 104,95 milhões na média e índice de 2,54 vezes da necessidade. A previsão em 2015 é fechar os estoques em apenas 88 milhões de toneladas, com uma necessidade de importação de 42,0 milhões e um índice de 2,10 vezes – o mais baixo dos últimos 50 anos”, sustenta o produtor.
“O arroz é alimento básico para a segurança alimentar da maioria dos países, sendo por isso controlado. É uma situação diferente das demais culturas, cujos preços não pesam na cesta básica e tampouco estimulam os interesses eleitoreiros. Isso justifica porque o arroz se depreciou tanto ao ponto que um quilo (1 Kg) do grão, que rende em média, 10 refeições custa menos do que um cafezinho”, explica.
Pilecco afirma que, “usando o Brasil como referência, os produtores há tempo vêm se descapitalizando e saindo do mercado. Atualmente no Rio Grande do Sul a produção está concentrada, pois 80% da produção está nas mãos 20% de produtores de grande a médio porte, que se mantêm na atividade mais pela tradição e poder de barganha do que pela rentabilidade”.
“Na Ásia, onde se produz 90% da produção mundial, são todos pequenos e miniprodutores e o arroz é cultura de subsistência. Os produtores de arroz chineses, por exemplo, a área média cultivada é de um hectare por família (com 5 pessoas) e o máximo de três hectares. Em 2011 o governo chinês lançou um plano agrícola empresarial familiar, se distanciando da política centenária de subsistência dos pequenos e mini produtores. Hoje se entende os diversos motivos que o levaram isso. Como uma família de produtor de subsistência cumprirá as responsabilidades sustentáveis (sociais e ambientais) cobradas pelo mundo?”, questiona.
“Qual a lição? A culpa não é do El Niño. É dos Governos! Simples assim. Se os lideres do mundo permanecerem de costas para o panorama mundial, alienados do que esta acontecendo com os produtores de arroz e seus custos, principalmente na Ásia e não fizerem o dever de casa, o impacto da crise por falta do arroz poderá até passar despercebida por mais 2 ou 3 anos, mas não passara do próximo ciclo climático. Aí então, essa conta provocará um colapso no abastecimento mundial do arroz”, afirma o economista.
“Qual a solução? Os governantes mundiais precisam chamar a iniciativa privada, garantir o livre mercado, colocar o arroz no mercado futuro nas bolsas de mercadorias e permitir que esse cereal assuma o status de commodity agrícola mais importante para segurança alimentar mundial”, conclui.

Agrolink
Autor: Leonardo Gottems

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